Venda consignada na loja: a conta e a nota fiscal certa
Descubra a partir de quanto encalhe o consignado rende mais que comprar do fornecedor, e o roteiro de notas fiscais que evita briga na hora do acerto.

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A artesã deixou 20 bolsas na loja de presentes com uma frase: "a gente acerta no fim do mês". Quatro semanas depois, 11 venderam, 2 estão riscadas e ninguém combinou quem paga a peça riscada nem que nota sai. Venda consignada é isso quando não tem regra: um bom negócio que vira discussão no acerto. A conta de quando ela compensa e o roteiro das notas estão abaixo.
Consignado, condicional e comissão: não é a mesma coisa
As três palavras se misturam no balcão e têm nota fiscal diferente. No consignado, o fornecedor deixa a mercadoria na sua loja, você vende em seu nome e paga a ele só o que vendeu. O que não vende volta. A mercadoria é dele até a venda; a venda é sua.
- Consignado (consignação mercantil): fornecedor deixa, loja vende e emite a nota ao cliente, acerto por peça vendida. O imposto da venda é da loja, sobre o preço cheio.
- Condicional: é o contrário, a loja é que deixa a peça com a cliente para ela provar em casa. Tem regra própria de controle de venda condicional e não entra aqui.
- Comissão: a loja só apresenta o produto e o fornecedor vende e emite a nota ao cliente. A loja recebe um percentual e emite nota de serviço. Em loja física é raro e costuma ser consignado disfarçado.
Consignado ou compra firme: a conta que decide
O fornecedor cobra mais caro no consignado, e tem razão: ele carrega o risco do encalhe. A pergunta é se esse risco vale o que ele cobra na sua loja, e a resposta depende de um número que quase ninguém mede: quanto da última compra parecida ficou parado. Digamos uma peça que vende a R$ 100, com 8% de imposto e cartão sobre a venda.
- 1Compra firme: custo de R$ 45. A peça vendida deixa R$ 100 − R$ 45 − R$ 8 = R$ 47. A peça que encalha e fica parada deixa −R$ 45.
- 2Consignado: repasse de R$ 60 ao fornecedor por peça vendida. A peça vendida deixa R$ 100 − R$ 60 − R$ 8 = R$ 32. A que não vende volta e custa zero.
- 3Com 30% de encalhe, cada peça que entra rende, na média, 0,7 × 47 − 0,3 × 45 = R$ 19,40 na compra firme e 0,7 × 32 = R$ 22,40 no consignado. O consignado ganha por R$ 3 a peça.
- 4Com 10% de encalhe, a compra firme rende R$ 37,80 e o consignado R$ 28,80. Agora a compra firme ganha por R$ 9. O empate, nesse exemplo, fica em 25% de encalhe.
Repare que o repasse de R$ 60 contra R$ 45 de custo é um ágio de 33%, e mesmo assim o consignado vence quando o encalhe passa de um quarto. Produto novo, sazonal ou de artesão sem histórico quase sempre passa. Produto de reposição, que você já sabe que gira, quase nunca.
Calcule com o seu produto e o seu encalhe
Preencha o preço de venda, o custo se comprar firme, o repasse que o fornecedor pede no consignado e o encalhe da última compra parecida. Escolha o que acontece com o que sobra quando você compra: liquidação, ponta de estoque ou fica parado. A calculadora devolve o lucro esperado por peça nos dois modelos e o encalhe a partir do qual o consignado passa a compensar.
Se deu empate, decida pelo caixa: o consignado não pede dinheiro adiantado, e para loja com capital de giro apertado isso vale mais do que os centavos de diferença. Se a compra firme ganhou de longe, negocie o repasse antes de aceitar a remessa: o fornecedor que insiste no consignado com repasse alto está cobrando duas vezes pelo mesmo risco.
Qual nota fiscal emitir em cada etapa da consignação
A consignação mercantil tem roteiro fiscal próprio, definido no Ajuste SINIEF 02/93, que os regulamentos estaduais reproduzem. São até cinco documentos por remessa, cada um com o seu CFOP, o código de quatro dígitos que classifica a operação para a Sefaz. A tabela vale para a loja consignatária, no Simples Nacional.
| Etapa | Quem emite | Documento | CFOP |
|---|---|---|---|
| Mercadoria chega à loja | Fornecedor | NF-e de remessa em consignação mercantil | 5.917 (a loja lança a entrada com 1.917) |
| Cliente compra no balcão | Loja | NFC-e de venda, como qualquer outra | 5.115 (venda de mercadoria recebida em consignação) |
| Acerto do que vendeu | Fornecedor | NF-e de venda ao consignatário, sem novo destaque de ICMS | 5.113 ou 5.114 (a loja lança como compra: 1.113 ou 1.114) |
| Acerto do que vendeu | Loja | NF-e de devolução simbólica, referenciando a remessa | 5.919 |
| Peça que não vendeu volta | Loja | NF-e de devolução de mercadoria recebida em consignação | 5.918 |
A confusão mais frequente está na segunda linha: a loja vende a peça consignada "por fora", sem cupom, porque "a mercadoria não é minha". É, para efeito de venda. A NFC-e sai no seu CNPJ, com o CFOP 5.115, e o DAS incide sobre os R$ 100 do cupom, não sobre os R$ 40 que ficam com você. Quem quiser conferir cada código encontra o roteiro de CFOPs da consignação mercantil com a base legal de cada etapa.
Confirme com o contador antes da primeira remessa
O acerto com o fornecedor: 5 regras para não brigar
A discussão do acerto nasce sempre de coisa que não foi combinada antes da remessa. Um contrato de uma página resolve, e o registro por peça no sistema prova o que aconteceu. As regras que a gente vê funcionarem em loja de presentes, bijuteria e roupa infantil são estas:
- 1Preço e repasse por peça no papel, com a lista da remessa assinada pelos dois. "Uns 20 itens" não é remessa; "20 bolsas, código 101 a 120, repasse R$ 60" é.
- 2Prazo da consignação e data do acerto: 30, 45 ou 60 dias, e acerto quinzenal ou mensal. Sem prazo, a peça fica na loja para sempre e o fornecedor cobra como se tivesse vendido.
- 3Quem paga peça danificada ou furtada: na sua loja, o padrão de mercado é a loja pagar pelo repasse. Escreva isso, e registre a nota de entrada peça por peça para saber o que estava lá.
- 4Desconto no consignado só com regra: se você liquida a peça, o repasse cai junto ou não? Combine a proporção antes, ou não dê desconto em consignado.
- 5Relatório de vendas por fornecedor no dia do acerto, tirado do sistema, com data e cupom de cada peça. É ele que encerra a conversa "tenho certeza que vendeu mais".
Onde o consignado vive no sistema da loja
O consignado só dá trabalho quando a peça consignada e a peça comprada se misturam no mesmo estoque. Num sistema para loja a remessa entra pela nota do fornecedor, com o cadastro marcado como consignado e o repasse gravado no custo. No caixa, o vendedor não precisa saber de nada: bipa e vende. No acerto, o relatório filtra o fornecedor e lista o que saiu, com o cupom de cada venda e a soma do repasse.
A devolução do que não vendeu sai do mesmo cadastro, com a nota de devolução puxando os dados da remessa, sem digitar código. Ao comparar sistemas para a loja, teste exatamente isso com uma remessa fictícia: os planos do VendaSimples incluem a entrada por nota, o relatório por fornecedor e a emissão da devolução em todos os planos.
Perguntas frequentes sobre venda consignada
Quem emite a nota fiscal na venda consignada?
A loja emite a NFC-e para o cliente na hora da venda, como em qualquer venda. O fornecedor emite a nota de remessa quando a mercadoria chega e a nota de venda para a loja no acerto. Se a mercadoria voltar, a loja emite a devolução.
Pode vender consignado sem contrato?
Pode, mas é onde as brigas nascem. Um contrato simples com lista de peças, repasse, prazo, responsabilidade por dano e data do acerto evita quase todas. A lista de remessa assinada pelos dois já serve como contrato mínimo.
MEI pode receber mercadoria em consignação?
Pode, desde que a atividade de comércio esteja no CNPJ. A venda ao cliente conta no faturamento do MEI pelo valor cheio do cupom, não só pela parte que fica com a loja, e isso pesa no limite anual.
Da próxima vez que um fornecedor oferecer consignado, faça duas coisas antes de dizer sim: rode a conta com o encalhe da sua última compra parecida e peça a lista da remessa por escrito, com repasse e prazo. Com a remessa entrando pela nota e saindo pelo cupom, o acerto do fim do mês vira um relatório, não uma reunião.
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