O que vender em um mercadinho de bairro: o mix que gira
Descubra quantos itens cabem nas suas prateleiras, como dividir o espaço entre as categorias e quais produtos trazem o cliente todo dia.

Neste artigo
O vendedor do atacado chega com o catálogo de 3 mil itens e você aponta o que "todo mercado tem". Três meses depois, metade das prateleiras está com produto parado e falta o pão de forma que o vizinho pede toda manhã. Decidir o que vender em um mercadinho começa pelo espaço que você tem, não pelo catálogo. A conta de quantos itens cabem está logo abaixo.
Quantos itens cabem no seu mercadinho
Prateleira é o recurso mais escasso de um mercadinho, e a lista de produtos precisa caber nela. Meça os metros de gôndola, conte as prateleiras de cada módulo e você tem quantas frentes existem na loja. Frente é o lugar onde um produto fica virado para o cliente. Cada item ocupa uma ou mais frentes, e o total de frentes dividido pelas frentes por item é o número de produtos que a loja consegue expor.
Digamos que o mercadinho tenha 12 metros de gôndola com 5 prateleiras, o equivalente a 60 metros lineares de exposição. Com uma frente média de 10 centímetros, são 600 frentes. Dando 2 frentes por produto, para a prateleira não parecer vazia na primeira venda, cabem 300 itens na parte seca. Some o que vai no refrigerado e você tem o tamanho real da sua lista.
Esse número muda tudo no pedido inicial. Quem calcula o estoque de abertura do mercadinho pela lista do atacado compra 1.200 itens para 300 lugares. O que não cabe fica na caixa, no depósito ou empilhado no chão, e produto que o cliente não vê não vende.
Calcule quantos produtos cabem na sua gôndola
Informe os metros de gôndola, as prateleiras por módulo, a largura média de uma frente e quantas frentes você quer dar a cada produto. Acrescente as portas de geladeira e freezer. A calculadora devolve quantos itens a loja consegue expor e uma divisão de partida entre as categorias, para você ajustar pelo bairro.
Se o resultado deu menos do que você imaginava, a saída não é apertar as frentes. Um produto com uma frente só desaparece na prateleira, o repositor não percebe quando acaba e o cliente acha que a loja está desabastecida. Melhor ter 300 itens bem expostos do que 600 escondidos.
A lista de partida: o que não pode faltar
A primeira lista tem um critério só: o que o cliente do bairro compra toda semana e não quer ir até o supermercado para buscar. Isso dá uma base de uns 60 a 80 itens, sempre os mesmos em quase todo mercadinho do Brasil, e o resto do espaço é preenchido pelo seu público. A tabela abaixo é uma divisão de partida; as porcentagens são exemplo, para você ajustar no segundo mês com o relatório de vendas.
| Categoria | Papel na loja | Parte dos itens (exemplo) | Itens que não podem faltar |
|---|---|---|---|
| Mercearia seca | Base da cesta semanal | 30% | Arroz, feijão, óleo, açúcar, café, macarrão, farinha, sal, molho de tomate, biscoito |
| Padaria e matinais | Traz o cliente todo dia | 10% | Pão francês ou de forma, leite, margarina, achocolatado, ovos |
| Frios e laticínios | Venda por peso e giro diário | 10% | Mortadela, presunto, queijo prato, mussarela, requeijão, iogurte |
| Carnes e congelados | Ticket alto, perda alta | 8% | Frango, linguiça, carne moída, salsicha, pão de queijo |
| Hortifruti | Reposição 2 a 3 vezes por semana | 7% | Banana, tomate, cebola, batata, alho, limão |
| Bebidas | Fim de tarde e fim de semana | 12% | Refrigerante 2 litros, água, cerveja lata e long neck, suco |
| Limpeza | Compra de reposição, pouca troca de marca | 10% | Sabão em pó, detergente, água sanitária, amaciante, esponja, saco de lixo |
| Higiene | Alta margem, pouco espaço | 8% | Papel higiênico, sabonete, creme dental, absorvente, fralda |
| Bomboniere e tabacaria | Compra por impulso no caixa | 5% | Chocolate, bala, chiclete, salgadinho, isqueiro, pilha |
Repare que a tabela não tem "variedades" nem "utilidades". Vassoura, pilha e vela entram, mas em meia prateleira. O mercadinho que tenta ser bazar perde a frente do arroz para a panela que vende uma vez por mês. Se o bairro não tem loja de utilidades por perto, teste com dez itens e cresça só se girarem.
Os produtos que trazem o cliente e os que pagam a conta
Pão, leite, refrigerante gelado e cigarro trazem gente para dentro todo dia, e quase não deixam margem. Tempero, pilha, gelo, carvão, sachê de maionese e o pote de requeijão pagam o aluguel. Um mix bem montado tem os dois lados, lado a lado: o item de giro na ponta da gôndola e o item de margem no caminho até o caixa.
- Itens de destino: pão, leite, ovos, cerveja gelada, carvão no sábado. O cliente sai de casa por eles. Nunca podem faltar, mesmo que a margem seja baixa.
- Itens de conveniência: o que ele leva porque viu: biscoito, salgadinho, chocolate, suco de caixinha, tempero pronto. Ficam na altura dos olhos e perto do caixa.
- Itens de margem: fracionados e de uso imediato: gelo, pilha, isqueiro, sachê, dose de amaciante. Preço unitário baixo, margem alta e ninguém compara com o supermercado.
- Itens de reposição: limpeza e higiene. O cliente compra a marca de sempre, então duas marcas por item bastam: uma líder e uma barata.
Isso explica por que o lucro do mercadinho é o do mix e não o da etiqueta: a margem média do mercadinho é a soma de 300 margens diferentes, puxada para baixo pelo pão e para cima pelo tempero. Quando falta espaço, corte uma marca repetida de refrigerante antes de cortar o item de margem.
Cadastro: o item só existe depois que entra no sistema
Produto que chega sem cadastro vira "diversos" no caixa, e "diversos" não entra em relatório nenhum. Antes do primeiro pedido, defina o padrão no sistema do mercadinho: código de barras do fabricante como chave, nome curto como o cliente fala, categoria da tabela acima, unidade de venda e controle de validade ligado para tudo que estraga.
Os itens sem código do fabricante, como pão, frios fatiados e banana, precisam de código interno impresso na loja ou de venda por peso na balança. E os perecíveis precisam de lote e data no cadastro desde o primeiro dia, porque a perda por validade no mercadinho é a maior despesa que não aparece em boleto nenhum.
Como saber em 60 dias o que sai da lista
A lista de abertura é um chute educado. A lista de verdade nasce do relatório de vendas depois de dois meses, com três perguntas por item: vendeu quantas unidades, em quantos dias diferentes e com que margem. Um produto que não vendeu em 45 dias ocupa frente de outro que venderia. Ele sai, e a frente vai para um item da mesma categoria que está sempre acabando.
- 1Puxe o relatório de vendas por produto dos últimos 60 dias e ordene por quantidade vendida.
- 2Marque os itens com zero venda em 45 dias. Promova para vender a sobra e não compre de novo.
- 3Veja os itens que acabaram antes da reposição. Dê a eles a frente que o item parado liberou.
- 4Confira a margem dos 20 itens mais vendidos. Se todos forem de destino, falta item de margem no caminho do caixa.
- 5Repita a cada 60 dias. O mix de dezembro não é o de março, e o bairro muda.
Com uns seis meses de venda, a curva ABC do estoque faz essa triagem sozinha. Os itens que respondem pela maior parte da venda ganham frente dupla e reposição garantida. A cauda que vende uma vez por mês fica com uma frente ou sai.
Num sistema para mercadinho, o relatório de giro por categoria sai pronto, com validade e margem por item. Ele está em todos os planos, sem limite de produtos cadastrados.
Hoje, pegue uma trena e meça as gôndolas antes de abrir o catálogo do atacado. Rode a calculadora, escreva a lista de partida com os 60 itens que não podem faltar e preencha o resto pela tabela. Em 60 dias, o relatório conta o que o bairro quer de verdade, e aí o pedido deixa de ser chute.
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