Quanto lucra um mercadinho pequeno: a conta por seção
Descubra quanto sobra de verdade no fim do mês: a margem de cada seção, o peso das perdas e do cartão, e por que dinheiro no caixa não é lucro.

Neste artigo
O mês fechou em R$ 90 mil no caixa e, quando o aluguel e a folha saíram, sobraram R$ 900. A dona olha para a gôndola cheia e não entende para onde foi o dinheiro. Quanto lucra um mercadinho não se responde com o faturamento: a resposta sai da margem de cada seção, menos o que se perde no caminho. A conta tem cinco linhas e está abaixo, com calculadora.
Faturamento não é lucro: as 5 linhas da conta
Todo mercadinho tem o mesmo caminho entre o que entra no caixa e o que sobra para o dono. O que muda de loja para loja é o tamanho de cada degrau. Digamos uma loja que vende R$ 90 mil por mês, com margem bruta do mix de 22%, para acompanhar a conta:
- 1Lucro bruto: faturamento menos o custo da mercadoria vendida. R$ 90.000 × 22% = R$ 19.800.
- 2Perdas: vencido, quebra e furto. Com 1,5% do faturamento, saem R$ 1.350.
- 3Cartão e vale: a taxa média sobre tudo que passou na maquininha e no vale. Com 2%, mais R$ 1.800.
- 4Imposto: o DAS do Simples, calculado sobre a venda. Com 4%, R$ 3.600. Sobram R$ 13.050 para as contas fixas.
- 5Contas fixas e o seu salário: aluguel, folha, energia, sistema e pró-labore. Com R$ 12.000, o lucro do mês é R$ 1.050, ou 1,2% do faturamento.
Repare que o número grande, os 22%, virou 1,2% em quatro degraus. Nenhum deles é grande sozinho, e é por isso que o dono não os vê. O perigo está na primeira linha: quase todo mundo chuta a margem bruta olhando a etiqueta do arroz, e a margem do mercadinho não é a de um produto, é a do mix.
Por que a margem do mercadinho é a do mix, não a da etiqueta
A seção que mais vende no mercadinho é a que menos deixa. Refrigerante, cerveja e cigarro giram o dia inteiro com margem apertada, e cigarro tem preço tabelado. Frios, padaria e hortifruti deixam o dobro por real vendido, mas vendem menos e perdem por vencimento. A margem da loja é a média dessas seções, pesada pelo quanto cada uma vende.
| Seção | Parte das vendas | Margem bruta da seção | Contribui para a margem da loja |
|---|---|---|---|
| Mercearia, limpeza e higiene | 55% | 22% | 12,1 pontos |
| Bebidas e cigarro | 25% | 15% | 3,75 pontos |
| Frios, padaria, hortifruti e açougue | 20% | 30% | 6 pontos |
| Loja inteira | 100% | 21,85% |
A última coluna é a que importa: parte das vendas vezes margem da seção, somada. Se a loja acha que trabalha com 30% porque o frios dá 30%, ela está superestimando o próprio lucro em quase 40%. A margem de lucro por segmento serve de referência para cada seção, mas a margem que paga o aluguel é a ponderada.
Mesma venda, lucro diferente
Calcule quanto lucra o seu mercadinho
Pegue o relatório de vendas do mês por seção, a média de margem dos 20 itens que mais vendem em cada uma, o total pago à maquininha, a alíquota da última guia do DAS e a soma das contas fixas. A calculadora monta a margem do mix, desce as cinco linhas e diz quanto a loja precisa faturar para empatar com você pago.
Se o resultado deu negativo com o pró-labore preenchido, a loja está pagando o dono com o dinheiro que deveria repor a mercadoria. É a situação mais comum em mercadinho novo, e ela não aparece no caixa enquanto o fornecedor dá prazo. Aparece no dia em que o boleto e a compra da semana caem juntos.
Sobrou dinheiro no caixa e não é lucro: onde ele se esconde
Lucro e dinheiro na conta andam separados no mercadinho, e confundir os dois é o que quebra loja que "vendia bem". O caixa cheio de hoje pode ser lucro, pode ser mercadoria ainda não paga e pode ser venda de dezembro que entra em janeiro. Três lugares escondem a diferença.
- Estoque comprado a prazo. O fornecedor entregou R$ 15 mil com boleto para 28 dias. A venda desse estoque já entrou no caixa; o pagamento ainda não saiu. O dinheiro parece seu por quatro semanas.
- Cartão a receber. Venda no crédito cai em 30 dias, menos a taxa. Num mês forte, o caixa mostra o Pix e o dinheiro de hoje, e o cartão do mês passado. O lucro é de um mês; o dinheiro, de dois.
- Perda que ainda não foi contada. O iogurte vencido continua no estoque do sistema até alguém dar baixa. No varejo brasileiro, 1,51% de tudo o que se vendeu em 2024 virou perda, segundo o levantamento anual da Abrappe; quem não mede descobre o próprio número só no inventário.
A regra prática é separar as duas perguntas. "Quanto lucrei?" é a conta das cinco linhas, com o custo da mercadoria vendida, não da comprada. "Quanto tenho?" é o extrato. Quando a segunda resposta é maior que a primeira por muito tempo, tem boleto ou perda escondida na diferença.
Onde o lucro do mercadinho cresce sem subir preço
Voltando ao exemplo dos R$ 90 mil: cada meio ponto de perda a menos são R$ 450 por mês, e cada ponto de margem do mix são R$ 900. Nenhum dos dois pede aumento na etiqueta, que o cliente de bairro compara com o atacarejo. Os ganhos que a gente vê funcionando em loja pequena são estes:
- Baixar a perda de perecível com controle de validade por lote e promoção do que vence em 3 dias. É a seção de maior margem e de maior perda: cada quilo que não vai para o lixo vale 30% de margem, não 22%.
- Deslocar 5 pontos do mix de bebida para padaria, frios fatiados e hortifruti. No exemplo da tabela, isso sobe a margem da loja em 0,75 ponto, ou R$ 675 por mês.
- Comprar melhor os 20 itens de maior giro. Um ponto de custo a menos no arroz, no óleo e no refrigerante pesa mais do que dez pontos num item que vende duas unidades por semana.
- Zerar a ruptura do que gira. Prateleira vazia de leite às 18h manda o cliente para o concorrente com a compra inteira, não só com o leite. Ponto de pedido resolve isso sem encher o estoque.
- Dar baixa em toda perda com motivo (vencido, quebra, furto, consumo interno). Sem isso a quebra de estoque continua invisível e a margem do relatório continua mentindo.
Como acompanhar o lucro todo mês sem esperar o contador
O contador fecha o mês para o imposto, não para a sua decisão de compra. Para saber o lucro em tempo de agir, a loja precisa de três coisas no mesmo lugar: venda por seção, custo de cada item vindo da nota de entrada e a baixa das perdas. Com isso, a conta das cinco linhas sai todo dia, não a cada trimestre.
É esse o trabalho de um sistema para mercadinho: a nota do fornecedor entra e atualiza o custo, o caixa baixa o estoque a cada venda e o relatório de margem separa mercearia, bebidas e perecíveis sem ninguém digitar planilha. Custo da mercadoria, relatório por seção e controle de validade vêm em qualquer um dos planos, inclusive no de entrada.
Dúvidas de quem faz essa conta pela primeira vez
Mercadinho de bairro dá lucro?
Dá, com margem líquida de um dígito na maior parte dos casos, o que exige giro. A pergunta útil é a da calculadora: quanto a sua loja precisa faturar para empatar com o pró-labore pago. Abaixo disso, ela dá prejuízo mesmo com o caixa cheio.
Devo contar o pró-labore como custo ou como lucro?
Como custo. O seu trabalho na loja tem preço, e ele precisa sair antes de você saber se o negócio lucra. Se o lucro só existe quando você não se paga, quem está financiando o mercadinho é você.
Cigarro vale a pena, com a margem tabelada?
Vale pelo que traz junto: quem entra para o maço leva refrigerante, pão e o que estiver no caixa. Sozinho, ele derruba a margem do mix. A conta é olhar o ticket de quem compra cigarro, não a margem do maço.
Hoje, antes de fechar, puxe a venda do mês por seção e rode a calculadora com os números que você tem, mesmo que a margem seja chute. Amanhã troque o chute pela margem real dos 20 itens que mais vendem. Em duas semanas você saberá qual seção paga o aluguel e qual só gira dinheiro, e essa é a resposta que o faturamento nunca vai dar.
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