Como precificar carne no açougue: 5 passos + calculadora
O preço da nota não é o custo da carne. Entre a peça que entra na câmara e o bife que sai na bandeja há osso, sebo, apara e o fator que mais engana o açougueiro: cortes de valores muito diferentes saindo do mesmo quilo comprado. Veja a conta completa, a tabela de rendimento e distribua o preço entre os cortes sem deixar a peça no prejuízo.

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Saber como precificar carne no açougue é diferente de precificar qualquer outro produto do varejo, porque a carne não chega pronta para vender. Ela entra como peça (traseiro, dianteiro, ponta de agulha, meia carcaça) e sai como dezenas de cortes que valem coisas muito diferentes, depois de deixar osso, sebo e apara na mesa de desossa. Quem calcula o preço do bife pelo quilo da nota, somando "uns 30%", está vendendo a picanha barata e o acém caro, e descobre no fim do mês que a peça inteira não pagou nem a si mesma. Este guia mostra a conta completa em cinco passos, a tabela de rendimento de referência, como distribuir o preço entre os cortes e traz uma calculadora para você testar com o custo da sua última nota.
Qual a margem de lucro de um açougue?
A margem de lucro de um açougue de bairro costuma ficar entre 15% e 25% sobre o preço de venda na carne bovina, já descontadas as despesas da venda, e sobe para 30% a 45% em itens de complemento como linguiça artesanal, temperados, carvão e bebida. A margem bruta que aparece na comparação entre o preço da nota e o preço da bandeja parece muito maior (a picanha "dobra de valor"), mas ela precisa cobrir a desossa, a perda de peso na câmara, a energia da refrigeração e a apara que vira carne moída a preço baixo. É a mesma lógica da margem de lucro ideal no varejo: o número que importa é o que sobra depois de tudo, e no açougue "tudo" inclui o osso.
Margem sobre a venda, não sobre a nota
Por que o preço da nota não é o custo da carne: a desossa muda tudo
Uma peça de 60 kg de traseiro que custou R$ 24,00 o quilo entra na câmara por R$ 1.440,00. Depois da desossa, sobram uns 45 kg de carne limpa (75% de rendimento) e 15 kg de osso, sebo e apara grossa. Se o osso e o sebo forem vendidos a R$ 2,00 o quilo, a peça devolve R$ 30,00, e o custo líquido cai para R$ 1.410,00. Divida pelos 45 kg vendáveis: o quilo de carne limpa custou R$ 31,33, 31% acima do preço da nota. Esse é o número sobre o qual o preço se sustenta, e ele muda de peça para peça, de fornecedor para fornecedor e de açougueiro para açougueiro. É o custo real do produto aplicado à carne: o que você paga é uma coisa, o que você consegue vender é outra.
O segundo motivo é que a carne limpa não é homogênea. Dos mesmos 45 kg saem 1,5 kg de picanha, 6 kg de contrafilé, 8 kg de coxão mole e 4 kg de músculo. O cliente paga R$ 79,90 pela picanha e não paga R$ 79,90 pelo músculo. Por isso o preço no açougue é sempre uma média ponderada: o que importa é que a soma da venda de todos os cortes pague a peça, as despesas e a margem, com cada corte ocupando o lugar que o mercado aceita.
Como calcular o preço da carne no açougue em 5 passos
A conta abaixo serve para qualquer peça bovina, suína ou de frango. O ponto de partida é sempre a nota do frigorífico com o frete rateado; o ponto de chegada é o preço médio mínimo por quilo que os cortes daquela peça precisam alcançar juntos.
- 1Anote o custo total da peça. Preço do quilo na nota × peso da peça na balança de entrada. Se o frete vier separado, rateie pelo peso. Exemplo: 60 kg × R$ 24,00 = R$ 1.440,00.
- 2Meça o rendimento da desossa. Pese a carne limpa que saiu da mesa e divida pelo peso bruto. Nos primeiros meses, pese toda peça: o rendimento real do seu açougueiro com o seu fornecedor é o dado mais valioso da precificação. No exemplo: 45 kg ÷ 60 kg = 75%.
- 3Desconte o que o subproduto devolve. Osso para caldo, sebo, retalho para cachorro: o que for vendido reduz o custo da carne. 15 kg × R$ 2,00 = R$ 30,00. Custo líquido: R$ 1.410,00.
- 4Calcule o custo real do quilo vendável. Custo líquido ÷ kg de carne limpa. R$ 1.410,00 ÷ 45 kg = R$ 31,33 por quilo.
- 5Aplique o markup divisor com despesas e margem. Preço médio = custo real ÷ (1 − (despesas% + margem%) ÷ 100). Com 8% de despesas (cartão, DAS, comissão) e 25% de margem: R$ 31,33 ÷ 0,67 = R$ 46,77 por quilo. É a média que os 45 kg precisam render, ou seja, R$ 2.104,00 de receita na peça.
Repare que o passo 5 divide, não multiplica. Quem multiplica o custo por 1,25 acha que colocou 25% de margem, mas colocou 20% de margem bruta, e depois de pagar cartão e imposto sobra uns 12%. Na carne, com o rendimento da desossa já comendo um terço do valor da nota, esse erro é a diferença entre um açougue que cresce e um que só gira dinheiro.
Calcule o preço da carne da sua peça agora
Use a calculadora com a última nota do frigorífico. Ela faz os cinco passos de uma vez e devolve o custo real do quilo de carne limpa, a receita mínima da peça e o preço médio por quilo que os cortes precisam alcançar. Os valores padrão são os do exemplo do traseiro; troque pelo seu custo, pelo seu peso e pelo rendimento que você mediu na desossa.
Quanto rende um traseiro e um dianteiro? Tabela de rendimento de referência
Um traseiro bovino rende, em média, entre 70% e 80% de carne limpa na desossa, e um dianteiro entre 65% e 75%, porque carrega mais osso e mais sebo em relação ao peso. O rendimento exato depende da raça, do acabamento de gordura, do fornecedor e da mão do açougueiro, então os números abaixo são um ponto de partida para quem ainda não mediu, não uma regra. A partir da terceira ou quarta peça pesada, use o seu próprio histórico.
| Peça | Rendimento típico de carne limpa | Principais cortes | Custo do kg vendável (nota a R$ 24,00) |
|---|---|---|---|
| Traseiro com osso | 70% a 80% | Picanha, contrafilé, alcatra, coxão mole, coxão duro, patinho, lagarto, músculo | R$ 29,50 a R$ 33,40 |
| Dianteiro com osso | 65% a 75% | Acém, paleta, peito, músculo dianteiro, cupim, pescoço | R$ 31,30 a R$ 35,90 |
| Ponta de agulha | 80% a 90% | Costela, bife de vazio, fraldinha | R$ 26,40 a R$ 29,50 |
| Peça já desossada (corte a vácuo) | 92% a 97% | Só o corte comprado, com apara mínima | Preço da nota ÷ rendimento (quase sem perda) |
A última linha explica por que tanto açougue pequeno migrou para comprar cortes a vácuo: o quilo na nota é mais caro, mas a perda é quase zero e a conta fica previsível. Só vale a pena comparar o custo do kg vendável, não o preço da nota. Vale também registrar a perda de peso na câmara entre a entrada e a venda: 1% a 2% de quebra em uma semana é normal, e ela entra no controle de estoque do açougue como perda, não some no ar.
Como distribuir o preço entre os cortes: nobre, primeira e segunda
O preço médio mínimo de R$ 46,77 do exemplo não é o preço de nenhum corte: é a média que a peça inteira precisa atingir. Na prática, você fixa o preço dos cortes nobres pelo que o mercado do bairro aceita, fixa os de segunda pelo que o cliente paga sem reclamar e confere se a média ponderada pelo peso de cada corte fica igual ou acima da média mínima. A tabela abaixo mostra um traseiro de 45 kg de carne limpa distribuído dessa forma.
| Corte | Peso (kg) | Preço por kg | Receita do corte |
|---|---|---|---|
| Picanha | 1,5 | R$ 79,90 | R$ 119,85 |
| Contrafilé | 6,0 | R$ 59,90 | R$ 359,40 |
| Alcatra | 5,0 | R$ 54,90 | R$ 274,50 |
| Maminha | 2,0 | R$ 52,90 | R$ 105,80 |
| Coxão mole | 8,0 | R$ 49,90 | R$ 399,20 |
| Fraldinha | 2,0 | R$ 49,90 | R$ 99,80 |
| Patinho | 5,0 | R$ 46,90 | R$ 234,50 |
| Lagarto | 3,0 | R$ 44,90 | R$ 134,70 |
| Coxão duro | 5,0 | R$ 42,90 | R$ 214,50 |
| Músculo | 4,0 | R$ 34,90 | R$ 139,60 |
| Aparas para moída | 3,5 | R$ 32,90 | R$ 115,15 |
| Total da peça | 45,0 | média R$ 48,82 | R$ 2.197,00 |
A média ponderada fechou em R$ 48,82, acima do mínimo de R$ 46,77: a peça paga o custo, as despesas e deixa cerca de R$ 610,00 de lucro em vez dos R$ 526,00 do preço médio, porque os cortes nobres puxaram a média para cima. Se você baixar o contrafilé para R$ 49,90 para "competir com o mercado", a média cai para R$ 47,49 e o lucro da peça encolhe quase R$ 60,00. Faça essa conferência toda vez que mexer no preço de um corte, e a cada nota nova do frigorífico. O post sobre preço por quilo mostra a versão simplificada dessa conta para um item só; aqui a diferença é que o preço nasce da peça inteira.
Carne moída, aparas e subprodutos: o lucro que vai para o lixo
Boa parte da diferença entre um açougue que lucra e um que empata está no que acontece com as aparas. Retalho limpo vira carne moída de primeira; apara com gordura vira moída de segunda ou linguiça; osso vira caldo e osso para cachorro; sebo é vendido a peso. Cada quilo desse material que vai para o lixo aumenta o custo real de todo o resto. No exemplo, se os 15 kg de subproduto fossem descartados em vez de vendidos a R$ 2,00, o custo do quilo de carne limpa subiria de R$ 31,33 para R$ 32,00, e a média mínima de todos os cortes subiria R$ 1,00 por quilo. Parece pouco, mas em 800 kg de carne por mês são R$ 800,00 de margem.
- Precifique a moída pelo custo da apara, não pelo custo do corte de origem. A apara do contrafilé já foi paga pelo preço do contrafilé. Se a moída for precificada de novo pelo custo cheio, ela fica cara demais e encalha.
- Registre a saída de subproduto no sistema. Osso e sebo vendidos a peso precisam de código próprio e passar pela balança, senão o dinheiro entra sem nota e o rendimento da peça fica mentindo.
- Transforme antes de perder. Corte que está há dois dias na bandeja vira temperado, espetinho ou linguiça, com margem maior do que o desconto de última hora.
Balança, etiqueta e NFC-e por peso: onde a conta se perde no balcão
A precificação mais bem feita do mundo não resiste a uma balança que pesa errado ou a um caixa que digita o preço na mão. Toda balança usada para vender ao consumidor precisa ser aprovada pelo Inmetro e verificada periodicamente pelo órgão de metrologia do estado, que aplica a marca de verificação e o lacre, como detalha a página de balanças comerciais do Ipem-PR. Fora da regra, além da multa, você pode estar vendendo 20 g a menos ou a mais em cada quilo sem saber, e 2% em 800 kg por mês são 16 kg de carne que somem ou que você dá de graça.
O segundo vazamento é o caixa. Quando a balança imprime a etiqueta com código de barras de peso e o sistema lê essa etiqueta no PDV, o preço por quilo cadastrado é o que vale, a NFC-e sai com o peso exato e o estoque em quilos baixa sozinho. Quando o operador digita R$ 49,90 ou R$ 45,90 de memória, o desconto involuntário vira rotina. Um sistema feito para venda a peso, como o da página de sistema para açougues, faz o caminho balança → etiqueta → PDV → nota sem intervenção, e ainda mostra no fim do dia quanto de cada corte saiu, o que é justamente o dado que alimenta o rendimento da próxima desossa. O post sobre como vender por peso explica a configuração da etiqueta.
Baixe grátis: planilha de rendimento de desossa e preço por corte
Para quem ainda não tem sistema com controle de peça, montamos uma planilha que registra cada desossa (peso bruto, custo, carne limpa, subproduto) e calcula sozinha o rendimento, o custo real do quilo e o preço médio mínimo com a sua margem. Na segunda aba você lança os cortes com o peso e o preço praticado, e ela confere se a média ponderada está acima do mínimo. Deixe o e-mail e o download começa na hora.
Os 6 erros que corroem o lucro na precificação da carne
- Precificar pelo quilo da nota. Ignora a desossa e faz o açougue vender carne limpa por um custo que não existe. Use sempre o custo do kg vendável.
- Não medir o rendimento. Cada fornecedor e cada açougueiro rendem diferente. Sem pesar a carne limpa, você está chutando o custo de tudo.
- Usar um markup só para todos os cortes. Deixa a picanha barata demais e o músculo caro demais; o cliente leva a picanha e o músculo encalha.
- Baixar o preço de um corte sem recalcular a média. Toda promoção em corte nobre precisa ser compensada em outro lugar, ou a peça inteira perde margem.
- Deixar a nota antiga mandar no preço. O frigorífico reajusta toda semana. Quem dá entrada na nota fiscal no sistema vê o custo novo no mesmo dia; quem não dá, descobre no fechamento do mês.
- Não contar a quebra da câmara e da bandeja. Perda de peso, escurecimento e vencimento são custo. Um inventário semanal em quilos mostra o tamanho real do problema.
Como o sistema mantém a margem da carne sem refazer a conta
Açougue trabalha com dezenas de cortes, reajuste semanal e fila no balcão. Ninguém refaz a conta peça por peça todo dia. O que funciona é cadastrar cada corte com a margem-alvo, registrar a entrada da peça pela nota fiscal com o rendimento, e deixar o sistema de gestão recalcular o preço quando o custo muda. A balança integrada garante que o preço cadastrado é o preço cobrado, a NFC-e por peso sai direto da venda, e o relatório de saída por corte é a base do controle de estoque em quilos. Quem ainda está montando o negócio encontra os custos iniciais no post quanto custa abrir um açougue; quem já opera pode conferir a lista de itens do guia do Sebrae para montar um açougue para revisar o que ficou de fora da estrutura de custo.
Perguntas frequentes sobre precificação de carne no açougue
Como calcular o preço de venda da carne no açougue?
Multiplique o custo do quilo na nota pelo peso da peça, desconte o que o osso e o sebo devolvem, divida pelos quilos de carne limpa que saíram da desossa e aplique o markup divisor: preço médio = custo real ÷ (1 − (despesas% + margem%)). Um traseiro de 60 kg a R$ 24,00, com 75% de rendimento, 8% de despesas e 25% de margem, precisa render em média R$ 46,77 por quilo.
Quanto se perde na desossa da carne?
Em um traseiro bovino com osso, a perda fica entre 20% e 30% do peso (osso, sebo e apara grossa); no dianteiro, entre 25% e 35%. Cortes comprados a vácuo perdem de 3% a 8%. O número certo é o da sua desossa: pese a carne limpa que saiu de cada peça e divida pelo peso bruto.
Qual a margem de lucro da carne bovina?
No açougue de bairro, a margem líquida da carne bovina costuma ficar entre 15% e 25% sobre o preço de venda, depois de pagar despesas como cartão e imposto. Cortes nobres trabalham acima disso e cortes de segunda abaixo; o que importa é a média ponderada da peça.
Como precificar os cortes nobres e os de segunda?
Fixe o preço do corte nobre pelo que o mercado do bairro aceita e o do corte de segunda pelo que o cliente paga sem reclamar. Depois confira se a média ponderada pelo peso de cada corte fica igual ou acima do preço médio mínimo da peça. Se ficar abaixo, algum corte precisa subir.
Vale a pena comprar carne desossada a vácuo em vez da peça?
Depende do custo do quilo vendável, não do preço da nota. O corte a vácuo custa mais na nota, mas rende de 92% a 97%, enquanto a peça com osso rende de 65% a 80%. Divida o preço da nota pelo rendimento de cada opção e compare: em muitos açougues pequenos o vácuo empata ou ganha, além de reduzir a mão de obra de desossa.
Precificar carne bem é menos sobre achar o preço da picanha e mais sobre manter a conta viva: a nota muda, o rendimento muda, o cliente muda. Com a peça registrada na entrada, o rendimento medido, a margem-alvo por corte e a balança integrada a um sistema de gestão que atualiza o preço a partir da nota e emite a NFC-e por peso na hora da venda, você para de refazer a conta no caderno e passa a decidir com o lucro real de cada peça na tela.
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