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Comprar uma loja já montada: como saber se o preço vale

Você compra três coisas: estoque, equipamento e a promessa de lucro. Só as duas primeiras dá para contar. A terceira, dá para calcular.

Equipe VendaSimples 9 min de leitura
Comprador conferindo o estoque de uma loja já montada com prancheta na mão, ao lado do dono atual, entre gôndolas e o balcão do caixa
Neste artigo

O anúncio diz "passo o ponto, loja montada, faturando". O dono pede R$ 120 mil, mostra um caderno de vendas e fala em clientela fiel. Comprar uma loja já montada pode sair mais barato que abrir do zero, mas só se o preço for de coisa que existe, não de história. Abaixo, os números que você confere sozinho e a calculadora que diz se o preço vale.

Vale a pena comprar uma loja pronta?

Vale quando o lucro comprovado devolve o preço em dois ou três anos e o que você paga é, na maior parte, estoque e equipamento. Não vale quando o preço é quase todo "ponto e clientela" e o lucro só existe na palavra do vendedor. A diferença entre os dois casos não está na loja: está na conta que você faz antes de assinar.

A vantagem real da loja montada é o tempo. Ela já tem alvará, cliente passando na porta, fornecedor cadastrado e um caixa que abre amanhã. Quem monta do zero leva meses para chegar aí e paga aluguel enquanto espera. Esse tempo tem valor, mas ele cabe no preço só depois de você saber quanto a loja lucra de verdade.

Os 3 números que não mentem

O caderno do dono conta o que ele quer contar. Peça os três documentos que ninguém consegue inflar, dos últimos seis meses, e cruze um com o outro. Se o vendedor recusa qualquer um deles, você já tem a resposta.

  • Extrato da maquininha e do Pix. É a venda que passou pelo banco. Numa loja de bairro, cartão e Pix são a maior parte do movimento, e o extrato mostra o valor por dia, com as taxas descontadas.
  • As guias de imposto pagas (o DAS, no Simples Nacional ou no MEI). O imposto é calculado sobre a receita declarada. Se a guia diz que a loja fatura R$ 20 mil por mês e o dono fala em R$ 40 mil, ou ele sonega, ou exagera. Nos dois casos, o número que vale para o preço é o menor.
  • As notas de compra dos fornecedores. Elas mostram quanto a loja repõe por mês. Quem vende R$ 40 mil de mercadoria com margem de 30% compra uns R$ 28 mil; se as notas somam R$ 10 mil, a venda não é a que ele diz.

Do faturamento que sobreviveu ao cruzamento, tire o aluguel, a folha, as contas e os impostos, e tire também o salário de quem vai tocar a loja, que é você. O que sobra é o lucro que entra na calculadora. Dono que "não tira pró-labore porque a loja é dele" está mostrando um lucro que inclui o salário de um funcionário que você vai ter que ser.

Conte o estoque você mesmo

O estoque é a parte do preço que dá para pegar na mão, e é também onde a diferença entre o pedido e o justo costuma se esconder. "Tem uns R$ 60 mil de mercadoria" quase sempre é preço de venda, e às vezes de venda com os produtos parados desde a inauguração. O número que entra na conta é o custo de compra, item por item, do que ainda vende.

Marque uma tarde e conte com o dono, prateleira por prateleira, como num inventário de estoque: quantidade, custo da última nota e situação (vende, vence em breve, parado). Produto vencido, fora de linha ou sem giro vale zero no preço, por mais que esteja na gôndola. Se a loja tem sistema, peça o relatório de estoque com custo e o de vendas por produto dos últimos 90 dias, e confira uma amostra de 20 itens contra a prateleira.

Calcule se o preço pedido vale

Informe o preço pedido, o estoque contado a custo, o valor de revenda dos equipamentos, as dívidas que o contrato deixa com você e o lucro mensal que sobrou do cruzamento. A calculadora separa o que você paga por coisa que existe do que paga pelo ponto, e diz em quantos meses o lucro devolve o dinheiro.

Digamos que o preço é R$ 120 mil, o estoque contado deu R$ 45 mil, os equipamentos valem R$ 15 mil de revenda e o lucro comprovado, depois do seu salário, é R$ 4 mil por mês. Metade do preço é coisa que existe; a outra metade, R$ 60 mil, é o que o dono cobra pelo ponto e pela clientela, e equivale a 15 meses do lucro atual. O preço todo volta em 30 meses, se nada mudar. É uma compra que se defende, e o mesmo preço com R$ 25 mil de estoque real e R$ 2 mil de lucro não se defende de jeito nenhum.

Passar o ponto ou comprar a empresa: o que muda nas dívidas

Existem dois negócios com o mesmo nome de "passar o ponto". Num, você compra a empresa inteira, o CNPJ com tudo o que ele deve. No outro, você abre o seu CNPJ e compra o estoque, os equipamentos e a chave da porta. Muita gente escolhe o segundo achando que assim as dívidas ficam com o antigo dono, e no imposto não é bem assim.

Pelo Código Tributário Nacional, quem compra um estabelecimento e continua a mesma atividade no lugar responde pelos tributos que ele devia até a data da compra. A cobrança é integral se o vendedor parar de trabalhar, e vem depois dele se o vendedor abrir outro negócio em até seis meses. É o artigo 133, explicado em detalhe pelo Migalhas. Ou seja: trocar o CNPJ não apaga o imposto atrasado da loja que você assumiu.

DívidaComo conferirQuem fica com ela
Imposto federal e Simples NacionalCertidão de regularidade fiscal do CNPJ, emitida de graça no gov.brPode ser cobrada de quem continua a atividade, mesmo com CNPJ novo
ICMS e taxas do estado e do municípioCertidão da Sefaz do estado e da prefeitura, com o CNPJ e a inscriçãoMesma regra do imposto federal
FornecedoresExtrato de títulos em aberto pedido a cada fornecedor principal, por telefoneDo vendedor, salvo se o contrato de compra diz o contrário
TrabalhistaRescisões pagas dos funcionários que saem; para os que ficam, o contrato de trabalho continua com vocêFuncionário mantido leva o tempo de casa junto
AluguelContrato de locação, prazo restante e a concordância por escrito do proprietário com a troca de inquilinoSem a concordância do dono do imóvel, você compra uma loja sem direito de ficar nela
O que conferir sobre dívidas antes de fechar, nos dois formatos de compra

Atenção

Peça as certidões no seu computador, na sua frente, com o CNPJ da loja. Certidão impressa e trazida pelo vendedor pode ser de três meses atrás. E leve o contrato para um contador ou advogado antes de assinar: uma cláusula de responsabilidade por dívidas anteriores custa uma hora de consulta e evita a cobrança que chega no sexto mês.

O que perguntar antes de assinar: 10 itens

  1. 1Por que você está vendendo? A resposta curta demais ("cansei") merece uma segunda pergunta.
  2. 2Quanto a loja vendeu em cada um dos últimos seis meses, pelo extrato, e não pela memória?
  3. 3Qual é o aluguel, até quando vai o contrato e o proprietário aceita a troca de inquilino por escrito?
  4. 4Quais fornecedores dão prazo, e o prazo continua com o novo dono ou volta para pagamento à vista?
  5. 5Quem são os três produtos que mais vendem e quanto do estoque atual é deles?
  6. 6Existe fiado ou crediário em aberto? Ele fica com quem, e vale quanto de verdade?
  7. 7Que equipamento é da loja, qual é alugado (maquininha, freezer de fornecedor) e qual está no nome de outra pessoa?
  8. 8A loja tem sistema? Os dados de produto, cliente e venda vêm junto na compra?
  9. 9Quantos funcionários ficam, com que salário e com que tempo de casa?
  10. 10Há concorrente novo abrindo na rua, obra na frente ou mudança no bairro que o extrato dos últimos meses ainda não mostra?

Os primeiros 30 dias depois da chave

A loja não muda de dono para o cliente: muda para o fornecedor e para o caixa. Nos primeiros dias, o prazo que o antigo dono tinha com o fornecedor costuma voltar para à vista até você ter histórico, e é aí que o capital de giro da compra faz falta. Reserve, além do preço, o dinheiro de um mês de reposição e de folha.

Se a loja tem sistema, decida na primeira semana se ele fica. Sistema no nome do antigo dono, com senha dele e contrato dele, é dele; o que você precisa é do cadastro de produtos com custo, dos clientes e do histórico de vendas exportados. O caminho para levar isso sem perder dado está na rotina de troca de sistema de gestão, e é mais fácil de fazer antes de a loja reabrir do que com fila no caixa.

A escolha do sistema segue os critérios de qualquer loja pequena, e os sete que decidem estão na comparação de melhor sistema para loja. O que muda para quem assume uma loja é a pressa: o cadastro precisa estar pronto no dia da reabertura, com o custo de cada item já contado.

Para quem assume um comércio de bairro, o VendaSimples entra com estoque a custo, PDV com NFC-e e relatório de venda por produto desde o primeiro dia. É o sistema para comércios, com planos por faixa de faturamento, sem cobrança por usuário.

Perguntas frequentes sobre comprar uma loja montada

Posso continuar usando o CNPJ do antigo dono por um tempo?

Só se você comprar a empresa e transferir a titularidade no contrato social e na Receita. Vender no CNPJ de outra pessoa, com a maquininha e a nota no nome dela, deixa o dinheiro e o imposto em nome de quem já saiu.

O estoque entra na nota fiscal da compra da loja?

Se você abre CNPJ próprio, o estoque precisa entrar com nota fiscal de venda do antigo CNPJ para o seu, item a item, senão ele não existe fiscalmente e você não consegue vender com nota. É mais uma razão para a contagem ser feita a custo, produto por produto.

Quanto tempo leva para fechar a compra de uma loja?

Entre a primeira visita e a chave, de duas a seis semanas costumam ser suficientes para contar o estoque, receber os extratos, tirar as certidões e ajustar o contrato de aluguel. Pressa do vendedor para fechar em uma semana é sinal para conferir tudo duas vezes.

Antes de responder ao anúncio, monte a sua conta: extrato, guia de imposto e notas de compra na mesa, estoque contado a custo, e a calculadora com o que sobreviveu. Se o preço volta em até três anos e mais da metade dele é coisa que você toca, negocie o resto. Se não, a loja pode ser boa, mas o negócio não é.

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